A NEUROINFLAMAÇÃO E O EGO IDENTIFICADO

O desequilíbrio psicoemocional, ou seja, a incapacidade ou dificuldade em lidar com situações ditas negativas, ganhou grande destaque no mundo contemporâneo. O maior problema que surge nisso, para além do próprio desequilíbrio, é o ego se tornar reativo ou identificado com os complexos, como trata a psicologia analítica. Quando isso acontece, o ego funciona em modo defensivo, automático e pouco consciente, expressando muitas vezes afetos intensos para mascarar o incômodo que sente. Por exemplo, alguém com desejos sexuais reprimidos pode se tornar um ativista fervoroso contra o que se sente atraído.
Muitas vezes, o desequilíbrio produz algo fisiológico que também opera silenciosamente para que o ego se torne reativo: o cérebro inflamado ou a neuroinflamação, que muda fisicamente o seu modo de operação. A consequência está na maneira como o ego lida com o mundo, saindo do modo “crescimento & conexão”, para entrar no modo “sobrevivência e defesa”. O ego, representando a consciência, irá se posicionar a partir de um sistema nervoso sob ataque biológico.
Evolutivamente, quando temos uma infecção, o corpo precisa economizar energia para lutar. Para isso, ele envia proteínas inflamatórias sinalizadoras produzidas por células do sistema imunológico (as citocinas), induzindo um tipo de “comportamento de doença”. Assim, naturalmente, agimos para certo isolamento social (não contaminar ou ser atacado), instala-se a ansiedade, ou seja, uma hipervigilância pois o predador é mais perigoso quando se está fraco, e se amplia o foco sobre si mesmo, em virtude da dor e desconforto.
No mundo moderno repleto de toxinas, tendo como vilões o álcool, proteínas virais ─ Herpes, HIV ou Sars-Cov2 ─ metais pesados, pesticidas e glúten, a neuroinflamação, ainda que de baixo grau, mantém o interruptor da defesa semiligado o tempo todo, como um conta gotas que pinga constantemente. O efeito disso é que a consciência de si mesmo fomenta o sentimento crônico de separação, ameaça e foco demasiado nos próprios problemas. Essa é a definição clássica de um ego inflado e sofrido. A inflamação cria a sensação biológica de que “o mundo é hostil e eu estou sozinho”. O ego tornou-se reativo.
A neuroinflamação afeta desproporcionalmente duas áreas, criando um desequilíbrio com muito poder: a amígdala, responsável por detectar ameaças, fica hiperativa e sensível, e o córtex pré-frontal (O CEO/Eu Superior), fica hipoativo e lento.
Na prática, quando o álcool/vírus inflama o cérebro, o caminho entre o centro de medo (amígdala) e o centro de razão (pré-frontal) se deteriora. Como consequência, perdemos a capacidade de observar a emoção (função do Eu Observador/Consciência) e passamos a ser a própria emoção (ego identificado). Até mesmo um comentário neutro pode ser lido como um ataque pessoal: um imprevisto não é um problema a resolver, é uma catástrofe. A consciência perde a “sutileza” e se torna binária: luta ou fuga.
Outro ponto do cérebro que a neuroinflamação mexe é com o DMN – Rede de Modo Padrão. O DMN é a rede cerebral ativa quando não focamos em alguma tarefa externa e a mente está repouso, voltada para dentro. É o funcionamento basal da consciência, o pano de fundo cognitivo que opera quando não estamos executando algo específico.
Quando o cérebro está saudável, a DMN liga e desliga fluidamente, e nesse fluxo, esquecemos de nós mesmos e depois voltamos. Mas o cérebro inflamado tende a travar a DMN na posição “LIGADO”.
Esse efeito ruminativo causa falha no sistema de limpeza que ocorre durante o sono, deixando o cérebro preso em loops de pensamentos repetitivos e autorreferenciais que impedem a individuação ou a integração de todas as partes da personalidade. É biologicamente difícil sentir unidade com o todo quando sua rede neural está gritando “EU, EU, EU” devido à irritação química.
| Estado Biológico | Estado da Consciência (Ego) | Experiência Subjetiva |
| Neuroinflamado (Álcool/Vírus ativos, sono ruim) | Ego Rígido/Reativo | Sensação de separação, vitimização, irritabilidade, pensamentos repetitivos (“ruminação”), dificuldade de empatia. |
| Neuro-otimizado (jejum, sono profundo, BDNF ─ “fertilizando cerebral” ─ alto) | Ego Fluido/Integrado | Sensação de clareza, capacidade de observar pensamentos sem reagir, facilidade de acesso ao “Flow”, conexão. |
As Soluções: Biologia x Consciência
O estado biológico neuro-otimizado, oposto do neuroinflamado, oferece ao ego, braço da consciência, algo fluído, seguindo para a próspera integração. Traz clareza, capacidade de observar sem reagir, facilidade de acesso a conexões.
Mas no ego identificado pela neuroinflamação, o comportamento é de vitimização, irritabilidade, dificuldade de empatia. Um cérebro inflamado resiste à própria consciência. Muitas vezes a pessoa acha que tem um “problema espiritual” ou “falta de força de vontade”, quando na verdade ela está lutando contra a tempestade das citocinas inflamatórias vindas de fontes que ela própria ignora.
O ego reativo se alimenta de três fontes principais de inflamação:
- – Química: álcool, drogas, poluição.
- – Biologia: Vírus (Herpes, HIV), bactérias (disbiose intestinal), insulina.
- – Psicologia/Comportamento: estresse, trauma, sobrecarga digital, sedentarismo.
A neurociência mostra que práticas de Mindfulness e Metacognição (treinar o observador) podem acalmar a amígdala mesmo na presença de inflamação. O hardware pode estar quente, mas o “software” (consciência) pode aprender a não reagir a esse calor. A inflamação é um obstáculo, não uma sentença.
| Estado Biológico | Estado da Consciência (Ego) | Experiência Subjetiva |
| Neuroinflamado (Álcool/Vírus ativos, sono ruim) | Ego Rígido/Reativo | Sensação de separação, vitimização, irritabilidade, pensamentos repetitivos (“ruminação”), dificuldade de empatia. |
| Neuro-otimizado (jejum, sono profundo, BDNF ─ “fertilizando cerebral” ─ alto) | Ego Fluido/Integrado | Sensação de clareza, capacidade de observar pensamentos sem reagir, facilidade de acesso ao “Flow”, conexão. |
É claro que não precisamos viver numa bolha estéril. O corpo lida bem com picos agudos de inflamação (um dia de “pé na jaca”). O problema é a cronicidade. Se a pessoa ficar obcecada em não comer glúten, não respirar poluição e não olhar telas, o estresse psicológico dessa vigilância (neurose) pode inflamar mais do que a própria substância.
Evoluímos convivendo com parasitas, fome e sujeira. Um certo nível de desafio imunológico é necessário. A meta não é inflamação zero (isso seria imunossupressão perigosa), mas sim inflamação controlada e resolvida a partir da CONSCIÊNCIA.
O que importa é a consciência dos atos e não os atos em si, porque somente ela pode nos fazer ir além.
