O Lado Sombrio da Meditação
Uma ampla revisão científica publicada no início de 2026 (Beyond serenity: Adverse effects of meditation and mindfulness in clinical practice, de Karin Matko e Nicholas T. Van Dam) trouxe dados que colocam em xeque a ideia da meditação como panaceia inofensiva. As pesquisas mapeadas indicam taxas bastante variáveis de efeitos adversos, de 25% a 87%, dependendo da definição e do método de avaliação, enquanto o prejuízo funcional foi relatado em proporções de 3% a 37%. Em alguns estudos, uma parcela menor apresentou efeitos negativos persistentes.
Os achados clínicos incluem picos agudos de ansiedade, estados de hiperativação ou alterações importantes nos estados de ativação e alerta, pânico, despersonalização, desrealização, embotamento emocional e, em alguns estudos, anedonia — a redução ou perda da capacidade de sentir prazer.
Diante desses números, a ciência contemporânea e a fenomenologia da mente se encontram em uma encruzilhada: o que a medicina ocidental diagnostica como “efeito colateral negativo” é sempre uma patologia, ou pode, em alguns casos, refletir também o choque entre desidentificar-se do ego (elemento motor básico da ambição e do consumo) e as exigências de uma sociedade orientada ao desempenho perpétuo?
Quando o mercado se apropria do mindfulness para transformá-lo em ferramenta de produtividade, a perda do ímpeto competitivo, o questionamento do consumo desenfreado e a quebra da reatividade instintiva podem passar a ser interpretados como “queda de funcionalidade”. Criar espaço entre a observação e a reação, o cerne de muitas tradições contemplativas, pode desestabilizar um modelo de subjetividade baseado na urgência e no desejo constante.
Por outro lado, os dados de Matko e Van Dam documentam estados que vão muito além da desaceleração consciente. Em determinados casos, trata-se de descompensação psíquica real. Para que o ego possa ser descentralizado ou integrado no sentido junguiano, ele precisa estar suficientemente estruturado. Em mentes fragilizadas por traumas não elaborados, o silêncio abrupto pode não gerar emancipação; pode expor conteúdos e estados psíquicos antes que existam recursos suficientes para integrá-los, favorecendo pânico, desorganização ou dissociação.
As tradições contemplativas que deram origem a muitas dessas práticas já reconheciam que o caminho contemplativo não é linear. O Budismo, em particular, desenvolveu historicamente mapas de estados desafiadores e perturbadores associados à prática meditativa. Em muitas dessas tradições, a meditação estava inserida em sistemas mais amplos de treinamento ético, corporal, relacional e doutrinário, e não era necessariamente apresentada como uma técnica isolada de autorregulação.
Ao empacotar a técnica isolada e vendê-la como bem-estar universal, o modelo contemporâneo pode ter criado um descompasso entre a complexidade da prática e a simplicidade com que ela é comercializada.
A literatura científica recente não serve para desqualificar as práticas contemplativas, mas para devolver a elas o rigor que a mercantilização apagou. Uma mudança só pode ser chamada de libertação se devolver a presença, a vitalidade e a lucidez diante da vida. Quando uma prática retira a capacidade de sustentar a própria existência e congela o afeto, não devemos automaticamente chamá-la de transcendência espiritual. Em contexto clínico, quando o prejuízo é atribuível à própria intervenção, pode haver, inclusive, um problema de iatrogenia.

